Steve Jobs. É, eu sei, você também já deve estar de saco cheio das menções de virtude associadas a ele, mas aguenta ai. Steve Jobs, disse numa entrevista? ou foi naquele vídeo de graduação? Não lembro, mas ele disse:
“Eu tenho olhado no espelho todas as manhãs e me perguntado - eu gostaria de fazer o que estou prestes a fazer hoje? e sempre que a resposta é não por muitos dias seguidos, eu sei que algo precisa mudar.”
Fazer auto-reflexão na frente do espelho todas as manhãs não é parte da minha rotina, bom, as vezes, mas a verdade é que, abusando de outro clichê, é fácil perceber quando há algo de podre no reino da Dinamarca. De um jeito ou de outro, nós sabemos quando algo não esta certo em nossas vidas, a diferença, além da coragem de dizer isso em voz alta, é que nos acostumamos a ignorar essa voz interior pelo simples fato de que ela não é conveniente.
Alguém diria, como posso entreter a ideia de “mudar a minha vida” quando acordo às 4 da manhã preocupado com as obrigações do dia? Eu tenho responsabilidades, compromissos, contas para pagar. Ou então, vem alguém com aquele papo de faça o que ama, nunca desista dos seus sonhos, e tudo o que você consegue pensar é em agredir o pobre cidadão somente para lembra-lo de que “a vida real” não é tão simples.
Se você é essa pessoa, acredite, eu te entendo.
Apesar disso, e por mais real que seja o peso das suas responsabilidades, não é inteligente passar a vida engolindo o próprio sapo. Quando algo não cheira bem, precisamos agir.
Mas como? E sobre o que?
É ai que a inconveniência começa. Primeiro, porque raramente é uma questão sobre “tudo ou nada”, e talvez seja esse o motivo de tanta gente estar cansada dessas histórias sobre empreendedorismo heróico. Segundo, porque não tem almoço grátis, portanto, qualquer milagre que exija acordar amanhã às 3 da manhã para pegar suas preocupações de surpresa antes das 4, não irá funcionar.
Independente do seu incomodo com a vida, é provável que ele esteja fundamentado em pequenos aspectos da rotina que, desculpe meu francês, cagam nosso dia-a-dia. É aquele compromisso auto-imposto e frequentemente postergado, ou aquela coisa que você sabe que odeia, mas ao mesmo tempo acontece dia sim, dia não. Usar gravata, ficar 2 horas no trânsito, responder mensagens no whatsapp, reuniões. É o famoso “ter que”, uma versão passivo-agressiva do mundo, que alguns farão questão de dizer que ninguém te obrigou a fazer mas ao mesmo tempo a estrutura e convenção sociais não te deixa escapar.
Identificar a origem dessa frustração é o primeiro passo para romper a inércia. Você pode fazer isso no começo do dia, refletindo com a mente descansada sobre o dia anterior e o que fez mas não gostaria de fazer novamente. Mas seja lá o que for que, anote. Assim como faço agora, há um benefício imediato em transpor pensamentos para o papel e nesse processo você será obrigado a detalhar um pouco melhor a raiz do problema. Não basta generalizar e dizer, não gosto do meu relacionamento, ou eu não iria trabalhar. É provável que haja virtude em qualquer que seja seu trabalho. Além do mais, trocar de emprego, apesar de ser sempre uma possibilidade, não garante que você não acordará depois de um tempo com o mesmo sentimento, especialmente se não souber descrever o que estava errado em primeiro lugar.
Portanto, o objetivo é fatiar o problema em pequenos pedaços que possam ser digeridos e fazer progresso sobre eles. Em algum momento, muitas pessoas "terão que" voltar ao escritório e ficar no trânsito que tanto odeiam, porém, é possível que alguns tentem negociar para trabalhar remotamente algunas vezes na semana, ou no mês. Não importa, por menor que seja o progresso, todo passo na direção certa pode ser considerado uma vitória.
James Clear é um autor que defende parte desse argumento melhor do que eu.
“Frequentemente colocamos uma pressão em nós mesmos para realizar alguma mudança radical que todos irão falar a respeito. Enquanto isso, melhorar 1% não é notável (e as vezes imperceptível), mas por ter um impacto significativo, especialmente no longo prazo”
Na prática, é a matemática de que o progresso de 1% ao dia te deixará 37% melhor após um ano. Onde eu saio um pouco dessa proposta, é que mesmo uma mudança de 1% ao dia tem um peso cotidiano que logo a transforma em obrigações e expectativas. Ou seja, o próprio compromisso de fazer um progresso tão pequeno, todos os dias, é enorme.
Ao invés disso, um caminho alternativo está em assumir que no geral nossa vida "esta ok", e ao sentir aquele repetido descontentamento que o Steve Jobs mencionou, colocar o dedo na ferida e identificar a real origem da nossa frustração. Uma técnica que pode te ajudar a chegar nessa origem é algo que toda criança faz bem, a dos 5 porquês. Finalmente, tendo um problema específico, pensar na "menor solução possível" e executa-la.
Reconheço a simplicidade do método, e talvez por isso eu goste tanto. Ele não requer milagres, não exige largar o emprego em busca de um sonho, ou abandonar a família, mas é o bastante para nos dar a coragem necessária para tomar decisões que tenham impacto em nosso dia-a-dia.
Vejo que os grandes problemas, aqueles que deveriam nos tirar da cama cedo, são resolvidos de uma forma ou de outra, por outro lado, essas pequenas concessões diárias, acumulam em frustrações e se transformam em obstáculos de uma vida melhor.