Fernando Silvestrin

May 26, 2024

A Ocupação - Julián Fuks

Todo homem é a ruína de um homem, eu poderia ter pensado. Aquele homem que se apresentava aos meus olhos era a encarnação dessa máxima, um ser em estado precário, um corpo soterrado em seus próprios escombros. Essa impressão não viria do pescoço fino, do torso esquálido, das pernas retorcidas sobre a cadeira de rodas, mas de um aspecto menor, circunstancial: o homem era naquele instante uma ruína de um homem porque estava completamente embriagado. Soube pelas palavras repetidas, pelas frases truncadas, pela voz que era também a ruína de uma voz. Não olhei os seus olhos, nos seus olhos não cheguei a procurar a minha própria imagem

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Ao dobrar uma esquina, o sol incidiu em cheio nos meus olhos, me cegando por um segundo. De olhos fechados, senti que me fazia um sujeito sem origem, sem história, habitante de um presente que era tudo ainda que nada durasse, ainda que mirasse continuamente ao futuro. Aquela era uma manhã luminosa, percebi. E, ao apertar o passo para que não me atropelasse o passado, me fundi enfim à imensidão dos outros.