Fernando Silvestrin

September 15, 2024

A Palavra que Resta - Stênio Gardel

Raimundo Gaudêncio de Freitas, traço incerto, arredio ao toque do papel. Lápis danado, domado, e ele escrevia o nome completo pela primeira vez. Setenta e um anos e essa invenção, como ele diz, de aprender a ler e escrever depois de velho. Raimundo não foi difícil. Complicado era Gaudêncio, denso de saudade, as cinco vogais e acentuado. Freitas era feito de sangue.

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A carta continuou dobrada, redobrada, mas o peito desdobrou, sei nem quantas vezes, faltava não caber. Agora o lugar dela é em cima da máquina de costurar que era da mãe. Virou desculpa para Suzzany fiar conversa. Quem chega, ela mostra e convida pra sentar, pensando na parte que vai inventar. Depois senta também e começa a contar a história da carta. Ela está se esgoelando na cozinha, me chamando pra almoçar enquanto a tilápia está crocante. Daqui a pouco reclama que não saio de cima do caderno novo que ela me deu na noite da formatura. Falou que era pra eu continuar estudando ou escrever o que eu quisesse. Acho que encontrei um começo.