Fernando Silvestrin

September 11, 2023

Salvatierra - Pedro Mairal

O quadro (sua reprodução) está no Museu Röell, ao longo de um grande corredor curvo e subterrâneo que conecta o antigo edifício com o novo pavilhão. Descendo as escadas, você pensa que chegou a um aquário. Por toda a parede interna de quase trinta metros, o quadro vai passando como um rio. Encostado na parede oposta há um banco em que as pessoas se sentam para descansar e olham o quadro passar lentamente. Demora um dia para completar seu ciclo. São quase quatro quilômetros de imagens movendo-se devagar, da direita para a esquerda.

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A obra inteira, digitalizada, passa lentamente da direita para a esquerda, como se fosse você a deslizar rio abaixo, ou quadro abaixo. Gastón e eu nos sentamos para olhar. Vimos coisas que Salvatierra pintou antes de morrer: a cozinheira caolha que salvou sua vida quando o cavala quase o matou, seu amigo Jordán tocando uma sanfona que jorra água e peixes, suas primas nuas no rio sob aquela luz baça dos salgueiros, minha mão tomando chimarrão sozinha no quintal da última casa. Notei como as pessoas passavam e se sentavam no banco ao longo da parede para olhar o quadro por um tempo. Agora todos podiam vê-lo. Não estava nada mal o que Luis e eu tínhamos conseguido, no fim das contas. Vi o rosto das pessoas sorrindo surpresas diante das imagens alheias, da luz e das cores de Salvatierra. Agora estava tudo junto, agora a obra podia fluir completa, sem lacunas, contínua, e eu estava ali com meu filho de vinte e três anos, que podia ver o que seu avô tinha feito, aquele quadro abraçava a todos nós, como um espaço onde os seres podiam se mover livremente, sem limites, porque não havia borda, não havia film, porque Gastón e eu vimos, depois de um tempo ali sentados, que os peixes e os círculos de água pintados no que acreditávamos ser a margem final do último rolo do quadro se encaixavam perfeitamente nos círculos de água e nos peixes do que fora a primeira margem pintada por Salvatierra quando ele tinha apenas vinte anos.